O Impacto da Pandemia de Covid-19 e da guerra na CLAMP

Em fevereiro de 2020, saí da MICAM em Milão com encomendas feitas e otimismo no ar. Duas semanas depois, começaram os cancelamentos em cadeia. O que parecia ser mais uma estação promissora virou um pesadelo para quem fornecia calçado para lojas físicas.
A pandemia de Covid-19 provocou uma transformação abrupta e profunda em diversos setores da economia global, e o comércio de calçado não foi exceção. As lojas físicas, durante décadas o principal ponto de contato entre marcas e consumidores, enfrentaram um dos maiores desafios de sua história recente: o encerramento forçado devido às medidas de distanciamento social e lockdowns.
Do Brilho da MICAM ao Silêncio das Lojas: Como o Covid-19 Colapsou o Setor de Calçado Físico.
Fevereiro de 2020. As luzes da feira MICAM em Milão ainda brilhavam na memória, os stands montados com profissionalismo, os contatos comerciais promissores, os apertos de mão que selavam encomendas. Eu, Gabriel Ferreira estava lá, como produtor e fornecedor da CLAMP, acreditando no desenvolvimento do nosso produto único, artístico, singular, divertido, de mais uma colecção e de uma estação de negócios cheios de sucesso. Ninguém imaginava que aquele seria um dos últimos grandes encontros internacionais antes do mundo parar e da chegada do caos.
Poucos dias depois, começaram os primeiros sinais de algo fora do normal: telefonemas adiando entregas, e-mails pedindo o cancelamento de encomendas, mensagens carregadas de incerteza. Em questão de semanas, o que era uma previsão otimista com orçamentos e contratos confirmados transformou-se num desastre comercial. As lojas físicas fecharam. Os mercados congelaram. E o setor da indústria de calçado, como tantos outros, mergulhou numa crise sem precedentes.
Para quem fornecia lojas físicas, como a CLAMP, o impacto foi brutal. Stocks cheios, fábricas paradas, encomendas prontas e despachar canceladas e, principalmente, a sensação de impotência diante de algo imenso e invisível. Enviamos mercadorias que nunca chegaram a ser entregues. Seguros de crédito a aumentar os custos, e a cancelar algumas das apólices de clientes. Os bancos e o nosso governo da altura... - Sim, a pandemia de Covid-19 teve um papel central na aceleração da inflação e na posterior subida dos juros em muitos países, o nosso não foi excepção, mas não foi o único fator envolvido.
Esse momento mostrou a fragilidade da nossa dependência do modelo tradicional de retalho. E para os fornecedores como a CLAMP, não se tratava apenas de vender calçado, era todo um ecossistema que ruía: logística, matérias-primas, empregos, relações comerciais de anos.
Mas também foi um momento de transformação. A crise forçou a inovação. Acelerou a digitalização. Fez nascer novos canais de distribuição, novas formas de chegar ao cliente, novos modelos de colaboração entre fornecedores e lojistas.
Ainda é difícil não lembrar da sensação de pânico quando as encomendas começaram a ser canceladas. Mas também é possível reconhecer o quanto o setor evoluiu. E apesar de tudo, tentamos, tentamos muito, talvez mais resilientes, mais conscientes e com uma visão mais ampla do que significa estar preparado para o futuro.
Lojas físicas independentes, que não tinham presença digital consolidada, foram especialmente impactadas. Algumas não conseguiram sobreviver, enquanto outras se viram obrigadas a acelerar sua digitalização, migrando rapidamente para o e-commerce e redes sociais como canais de venda.
Por outro lado, esse cenário também impulsionou mudanças importantes: a adoção de tecnologias digitais, a integração entre lojas físicas e virtuais, e o fortalecimento de novos modelos de consumo, como o "compre online, retire na loja".
A crise sanitária expôs a vulnerabilidade do modelo tradicional da venda ao consumidor final, mas também ofereceu uma oportunidade de reinvenção. Hoje, muitas marcas estão a reavaliar o papel da loja física, que passa a ser menos um ponto de venda e mais um espaço de experiência e relacionamento com o cliente.
O setor do calçado, ao se adaptar, deu passos importantes rumo a um futuro mais digital, ágil e centrado no consumidor final.
CLAMP_Covid-19, corredores e stands vazios.
Algumas imagens explicativas da falta de clientes.
A reportagem transmitida, a 1 de Maio de 2021, na RTP, no programa "Hora dos Portugueses", num período de pandemia, são aproximadamente 42 segundos, que ficarão na história da CLAMP. A Jornalista, Marisa Fernandes, ficará para sempre ligada a um pedacinho da nossa história, por isso, um bem haja por este momento único, que ficará no coração de todos os colaboradores da CLAMP.
Do Fim da Pandemia ao Início da Guerra:
Fevereiro de 2022. A CLAMP estava novamente a expor na MICAM em Milão. Havia no ar um certo alívio, após dois anos de pandemia, as lojas físicas voltavam a abrir, os compradores retornavam às feiras, e o setor começava a respirar. Parecia o início de uma recuperação. Mas a esperança durou pouco. Na mesma semana em que estávamos a apresentar a nova coleção, "estourava" a guerra na Ucrânia. E, mais uma vez, a estabilidade fugia do horizonte. A guerra na Ucrânia, que começou em 2022, agravou ainda mais a situação, fazendo disparar os preços da energia e dos alimentos, setores que pesam muito nos índices de inflação.
A invasão da Ucrânia pela Rússia, provocou profundas consequências económicas na Europa, afetando o crescimento económico, a estabilidade dos preços, o setor energético e as finanças públicas dos Estados europeus. O conflito surgiu num contexto de recuperação pós-pandemia, agravando vulnerabilidades já existentes nas economias europeias.
Um dos impactos mais imediatos foi a crise energética. A Europa dependia fortemente do gás natural e do petróleo russos, e a redução abrupta desse fornecimento levou a um aumento significativo dos preços da energia. Em 2022, os custos do gás e da eletricidade atingiram níveis historicamente elevados, o que se refletiu diretamente nos preços de bens e serviços, contribuindo para uma forte subida da inflação em toda a União Europeia.
A inflação elevada tornou-se um dos principais desafios económicos. O aumento dos preços da energia e dos alimentos reduziu o poder de compra das famílias, afetando sobretudo as camadas mais vulneráveis da população. Em resposta, os bancos centrais, incluindo o Banco Central Europeu, aumentaram as taxas de juro para controlar a inflação, o que acabou por desacelerar o investimento e o crescimento económico.
A CLAMP apostava num posicionamento mais assertivo e em reaproximações com mercados perdidos durante o confinamento. A guerra foi um choque, a invasão da Ucrânia causou instabilidade imediata nos mercados. Incerteza nos países vizinhos afetou os compradores do Leste Europeu. Os compradores russos e ucranianos, importantes para algumas marcas, deixaram de aparecer. Chegamos a ter clientes nos dois países.
Muitos visitantes chegaram com dúvidas, medos, sem saber se iriam ou não fechar encomendas. O clima na feira oscilava entre otimismo e preocupação. Na cabeça dos clientes estava presente a inflação elevada e a redução do poder de compra.
Para a CLAMP, como para muitas outras empresas, 2022 mostrou que o setor precisa estar preparado para o inesperado. Entre uma pandemia global e uma guerra às portas da Europa, aprendemos que resiliência e agilidade são mais importantes do que nunca.
Estávamos a expor na Gallery em Dusseldorf e escrevi no meu bloco de notas da época - 31-08-2020
Living in post - world

