Ser empresário

28-09-2026
Pedras no caminho...
Pedras no caminho...

...O atual cenário económico europeu é marcado por um choque energético decorrente de conflitos geopolíticos, o que voltou a pressionar a inflação e obrigou o Banco Central Europeu (BCE) a retomar a subida das taxas de juro. 

Por que razão este cenário é prejudicial para os empresários? Com raras exceções (como grandes empresas petrolíferas ou o setor financeiro que beneficia de juros altos), a maioria dos empresários enfrenta uma forte "repressão das margens de lucro":

  1. Aumento dos Custos de Produção: A subida em flecha dos combustíveis (com o gasóleo a atingir recordes históricos) encarece drasticamente os transportes, as frotas e a logística de distribuição. 
  2. Financiamento mais Caro: Com o aumento das taxas de juro de referência do BCE (atualmente em 2,50% para a facilidade de depósito e 2,65% para a taxa principal de refinanciamento), o crédito bancário e as linhas de financiamento para as empresas ficaram muito mais caros, travando novos investimentos.
  3. Queda no Consumo: A inflação na Zona Euro subiu para 3,2% em agosto, retirando poder de compra direto às famílias. À medida que os consumidores gastam mais em combustível e em prestações da casa, sobra menos dinheiro para comprar bens e serviços das empresas. 

Nota: Longe do alarmismo pessimista e igualmente distante do otimismo ingénuo, este texto propõe uma abordagem assente no puro realismo. Face às incertezas do futuro, a análise fria dos factos não serve para antecipar o fracasso, mas sim para mapear o terreno real onde teremos de agir, decidir e construir. 


Ser Empresário em Portugal: A Arte de Reinventar-se

Quando se fala de empresários, muitas vezes imagina-se apenas números, faturação ou negócios. Mas por trás de cada empresa existe uma história feita de decisões difíceis, riscos assumidos e uma enorme capacidade de adaptação.

A minha visão sobre o que significa ser empresário em Portugal mudou profundamente ao longo dos últimos anos.

Durante décadas, a indústria portuguesa do calçado foi um exemplo de qualidade, inovação e capacidade exportadora. Tive a oportunidade de trabalhar neste setor e de fornecer mundialmente algumas das principais lojas físicas de calçado.

Em fevereiro de 2020 a pandemia de Covid-19 espalhou-se pelo mundo e mercados inteiros fechavam. Empresas que tinham planeado o ano ao detalhe viam-se confrontadas com uma realidade sem precedentes.

Foi um dos momentos mais difíceis que vivi enquanto empresário.

Nessas alturas percebemos que empreender não é apenas gerir períodos de crescimento. É sobretudo saber sobreviver quando tudo parece estar contra nós.

Mas também aprendemos uma lição importante: a capacidade de adaptação é muitas vezes mais importante do que a dimensão da empresa.

Foi precisamente essa mentalidade que abriu portas a novos caminhos.

Recentemente designadamente em setembro de 2023, tive a oportunidade de participar na apresentação da STTEK, uma empresa focada em soluções de automação industrial e robótica colaborativa. O que começou com uma forte ligação a determinados setores industriais rapidamente revelou um potencial muito mais abrangente.

Percebemos que os desafios enfrentados pelas empresas eram semelhantes em diferentes indústrias: falta de mão de obra, necessidade de aumentar a produtividade, melhoria das condições ergonómicas e procura de maior competitividade.

Aquilo que inicialmente podia parecer uma solução para um setor específico revelou-se aplicável à indústria do calçado, à metalomecânica, à logística, à alimentar e a muitos outros segmentos.

A verdadeira inovação acontece quando deixamos de olhar para as limitações de um mercado e começamos a identificar problemas comuns que podem ser resolvidos através da tecnologia.

A expansão para novas indústrias não aconteceu por acaso. Exigiu aprendizagem, investimento, capacidade técnica e, acima de tudo, a coragem de sair da zona de conforto.

Essa é talvez a principal característica que define um empresário em Portugal.

Num país onde frequentemente se fala das dificuldades, dos impostos, da burocracia e dos obstáculos ao crescimento, continua a existir uma geração de empresários que insiste em criar, inovar e investir.

Não porque o caminho seja fácil.

Mas porque acredita que é possível construir algo melhor.

Hoje vejo o empreendedorismo de forma diferente daquilo que via há alguns anos. Já não o associo apenas a vendas ou resultados financeiros. Associo-o à capacidade de enfrentar crises, reinventar modelos de negócio, explorar novas oportunidades e continuar a avançar quando muitos escolheriam parar.

Ser empresário em Portugal é viver com incerteza. Mas é também ter o privilégio de transformar ideias em realidade, criar emprego, desenvolver tecnologia e contribuir para o crescimento do país.

No final, o sucesso de um empresário não se mede apenas pelo que constrói nos momentos de prosperidade. Mede-se sobretudo pela forma como reage quando é obrigado a recomeçar.

Em Portugal, existe muitas vezes a ideia de que o empresário vive apenas os momentos de sucesso. A realidade é bem diferente. Por trás de cada empresa existem responsabilidades permanentes: salários para pagar, compromissos com fornecedores, investimentos realizados e equipas que dependem das decisões tomadas diariamente.

Quando os negócios correm bem, os resultados são visíveis. Quando surgem as crises, a pressão raramente é percebida por quem está de fora.

Mas foi precisamente nos momentos mais difíceis que encontrei as maiores oportunidades de aprendizagem.

Percebi que a adaptação não é apenas uma vantagem competitiva. É uma questão de sobrevivência.

Foi essa mentalidade que me levou a olhar para novos desafios e novas áreas de atividade.

Essa evolução mostrou-me algo fundamental: as empresas que conseguem crescer são aquelas que sabem transferir conhecimento, tecnologia e experiência para novos mercados.

A inovação não acontece apenas quando se cria algo novo. Acontece também quando encontramos novas formas de aplicar aquilo que já sabemos fazer bem.

Hoje continuo a acreditar que Portugal tem talento, capacidade técnica e espírito empreendedor para competir com qualquer país do mundo.

Temos engenheiros de excelência, empresas inovadoras e empresários resilientes. O que muitas vezes nos falta não é competência. É confiança para pensar maior, investir mais e acreditar que podemos criar soluções com impacto global.

Olhando para trás, desde os dias difíceis que se seguiram à covid-19 até aos projetos tecnológicos que hoje ajudam empresas de diferentes indústrias, percebo que o verdadeiro percurso empresarial raramente é linear.

É feito de avanços e recuos.

De sucessos e fracassos.

De momentos de entusiasmo e de períodos de enorme incerteza.

Mas é precisamente essa capacidade de recomeçar que define um empresário.

Porque empreender em Portugal não é apenas criar uma empresa.

É acreditar numa visão quando ainda ninguém a vê.

É continuar a investir quando seria mais fácil desistir.

E é transformar cada desafio numa oportunidade para construir algo melhor.

Hoje, depois da crise financeira de 2008, da austeridade de 2011 e da pandemia de 2020, olho para o empreendedorismo com uma perspetiva diferente.

Continuo a acreditar no potencial das empresas portuguesas.

Continuo a acreditar na capacidade de inovação da nossa indústria. Mas acredito, acima de tudo, na resiliência dos empresários portugueses.

Porque ser empresário em Portugal não é apenas criar riqueza ou gerar emprego. É continuar a investir quando a confiança desaparece. É continuar a acreditar quando a incerteza domina.

E é perceber que, por maiores que sejam as crises, existe sempre a possibilidade de recomeçar.


"Se tivesse de resumir os últimos quinze anos da minha vida empresarial numa única palavra, escolheria resiliência. Porque sobreviver à crise financeira de 2008, à austeridade de 2011 e à pandemia de 2020 ensinou-me que os empresários portugueses não são definidos pelos tempos fáceis. São definidos pela forma como respondem quando tudo parece estar contra eles."


Share