Ser empresário

...O atual cenário económico europeu é marcado por um choque energético decorrente de conflitos geopolíticos, o que voltou a pressionar a inflação e obrigou o Banco Central Europeu (BCE) a retomar a subida das taxas de juro.
Por que razão este cenário é prejudicial para os empresários? Com raras exceções (como grandes empresas petrolíferas ou o setor financeiro que beneficia de juros altos), a maioria dos empresários enfrenta uma forte "repressão das margens de lucro":
- Aumento dos Custos de Produção: A subida em flecha dos combustíveis (com o gasóleo a atingir recordes históricos) encarece drasticamente os transportes, as frotas e a logística de distribuição.
- Financiamento mais Caro: Com o aumento das taxas de juro de referência do BCE (atualmente em 2,50% para a facilidade de depósito e 2,65% para a taxa principal de refinanciamento), o crédito bancário e as linhas de financiamento para as empresas ficaram muito mais caros, travando novos investimentos.
- Queda no Consumo: A inflação na Zona Euro subiu para 3,2% em agosto, retirando poder de compra direto às famílias. À medida que os consumidores gastam mais em combustível e em prestações da casa, sobra menos dinheiro para comprar bens e serviços das empresas.


Nota: Longe do alarmismo pessimista e igualmente distante do otimismo ingénuo, este texto propõe uma abordagem assente no puro realismo. Face às incertezas do futuro, a análise fria dos factos não serve para antecipar o fracasso, mas sim para mapear o terreno real onde teremos de agir, decidir e construir.
Ser Empresário em Portugal: A Arte de Reinventar-se
Quando se fala de empresários, muitas vezes imagina-se apenas números, faturação ou negócios. Mas por trás de cada empresa existe uma história feita de decisões difíceis, riscos assumidos e uma enorme capacidade de adaptação.
A minha visão sobre o que significa ser empresário em Portugal mudou profundamente ao longo dos últimos anos.
Durante décadas, a indústria portuguesa do calçado foi um exemplo de qualidade, inovação e capacidade exportadora. Tive a oportunidade de trabalhar neste setor e de fornecer mundialmente algumas das principais lojas físicas de calçado.
Em fevereiro de 2020 a pandemia de Covid-19 espalhou-se pelo mundo e mercados inteiros fechavam. Empresas que tinham planeado o ano ao detalhe viam-se confrontadas com uma realidade sem precedentes.
Foi um dos momentos mais difíceis que vivi enquanto empresário.
Nessas alturas percebemos que empreender não é apenas gerir períodos de crescimento. É sobretudo saber sobreviver quando tudo parece estar contra nós.
Mas também aprendemos uma lição importante: a capacidade de adaptação é muitas vezes mais importante do que a dimensão da empresa.
Foi precisamente essa mentalidade que abriu portas a novos caminhos.
Recentemente designadamente em setembro de 2023, tive a oportunidade de participar na apresentação da STTEK, uma empresa focada em soluções de automação industrial e robótica colaborativa. O que começou com uma forte ligação a determinados setores industriais rapidamente revelou um potencial muito mais abrangente.
Percebemos que os desafios enfrentados pelas empresas eram semelhantes em diferentes indústrias: falta de mão de obra, necessidade de aumentar a produtividade, melhoria das condições ergonómicas e procura de maior competitividade.
Aquilo que inicialmente podia parecer uma solução para um setor específico revelou-se aplicável à indústria do calçado, à metalomecânica, à logística, à alimentar e a muitos outros segmentos.
A verdadeira inovação acontece quando deixamos de olhar para as limitações de um mercado e começamos a identificar problemas comuns que podem ser resolvidos através da tecnologia.
A expansão para novas indústrias não aconteceu por acaso. Exigiu aprendizagem, investimento, capacidade técnica e, acima de tudo, a coragem de sair da zona de conforto.
Essa é talvez a principal característica que define um empresário em Portugal.
Num país onde frequentemente se fala das dificuldades, dos impostos, da burocracia e dos obstáculos ao crescimento, continua a existir uma geração de empresários que insiste em criar, inovar e investir.
Não porque o caminho seja fácil.
Mas porque acredita que é possível construir algo melhor.
Hoje vejo o empreendedorismo de forma diferente daquilo que via há alguns anos. Já não o associo apenas a vendas ou resultados financeiros. Associo-o à capacidade de enfrentar crises, reinventar modelos de negócio, explorar novas oportunidades e continuar a avançar quando muitos escolheriam parar.
Ser empresário em Portugal é viver com incerteza. Mas é também ter o privilégio de transformar ideias em realidade, criar emprego, desenvolver tecnologia e contribuir para o crescimento do país.
No final, o sucesso de um empresário não se mede apenas pelo que constrói nos momentos de prosperidade. Mede-se sobretudo pela forma como reage quando é obrigado a recomeçar.
Em Portugal, existe muitas vezes a ideia de que o empresário vive apenas os momentos de sucesso. A realidade é bem diferente. Por trás de cada empresa existem responsabilidades permanentes: salários para pagar, compromissos com fornecedores, investimentos realizados e equipas que dependem das decisões tomadas diariamente.
Quando os negócios correm bem, os resultados são visíveis. Quando surgem as crises, a pressão raramente é percebida por quem está de fora.
Mas foi precisamente nos momentos mais difíceis que encontrei as maiores oportunidades de aprendizagem.
Percebi que a adaptação não é apenas uma vantagem competitiva. É uma questão de sobrevivência.
Foi essa mentalidade que me levou a olhar para novos desafios e novas áreas de atividade.
Essa evolução mostrou-me algo fundamental: as empresas que conseguem crescer são aquelas que sabem transferir conhecimento, tecnologia e experiência para novos mercados.
A inovação não acontece apenas quando se cria algo novo. Acontece também quando encontramos novas formas de aplicar aquilo que já sabemos fazer bem.
Hoje continuo a acreditar que Portugal tem talento, capacidade técnica e espírito empreendedor para competir com qualquer país do mundo.
Temos engenheiros de excelência, empresas inovadoras e empresários resilientes. O que muitas vezes nos falta não é competência. É confiança para pensar maior, investir mais e acreditar que podemos criar soluções com impacto global.
Olhando para trás, desde os dias difíceis que se seguiram à covid-19 até aos projetos tecnológicos que hoje ajudam empresas de diferentes indústrias, percebo que o verdadeiro percurso empresarial raramente é linear.
É feito de avanços e recuos.
De sucessos e fracassos.
De momentos de entusiasmo e de períodos de enorme incerteza.
Mas é precisamente essa capacidade de recomeçar que define um empresário.
Porque empreender em Portugal não é apenas criar uma empresa.
É acreditar numa visão quando ainda ninguém a vê.
É continuar a investir quando seria mais fácil desistir.
E é transformar cada desafio numa oportunidade para construir algo melhor.
Hoje, depois da crise financeira de 2008, da austeridade de 2011 e da pandemia de 2020, olho para o empreendedorismo com uma perspetiva diferente.
Continuo a acreditar no potencial das empresas portuguesas.
Continuo a acreditar na capacidade de inovação da nossa indústria. Mas acredito, acima de tudo, na resiliência dos empresários portugueses.
Porque ser empresário em Portugal não é apenas criar riqueza ou gerar emprego. É continuar a investir quando a confiança desaparece. É continuar a acreditar quando a incerteza domina.
E é perceber que, por maiores que sejam as crises, existe sempre a possibilidade de recomeçar.
"Se tivesse de resumir os últimos quinze anos da minha vida empresarial numa única palavra, escolheria resiliência. Porque sobreviver à crise financeira de 2008, à austeridade de 2011 e à pandemia de 2020 ensinou-me que os empresários portugueses não são definidos pelos tempos fáceis. São definidos pela forma como respondem quando tudo parece estar contra eles."
